David Azulay não tinha a psique de um estilista, nem falava como um. Era um carioca por vocação, com mais de 40 anos de praia. "Não sou estilista, nem gostaria de ser. Estou muito mais preocupado em manter a ideologia da minha marca: ser brasileira e ipanemense”, gostava de dizer. No entanto, ele foi o homem que criou uma das mais renomadas marcas de beachwear do planeta, a Blue Man, considerado por muitos o “pai” da moda praia no Brasil.
Sua história começa na mística Ipanema dos anos 70. David desembarcou no Rio de Janeiro em 1967, para fugir do marasmo de Belém. Tinha apenas 12 anos e vinha acompanhando de Simão Azulay, seu irmão mais velho.
Simão tornou-se rapidamente um personagem carioca. Começou vendendo bottons dos Beatles e em pouco tempo já era um verdadeiro criador de moda. Suas primeiras peças, camisas cacharel bordadas, foram um sucesso imediato. David assistia a tudo isso de perto, já que o irmão costurava e bordava em casa. Um dia, recebeu uma encomenda endereçada a Simão: dois biquínis feitos de jeans.
David “sequestrou” a encomenda e saiu andando pelas ruas do Rio com os biquínis. Em apenas uma tarde, batendo de loja em loja, vendeu 1800 peças. Não era de se estranhar que um modelo inovador como aquele despertasse tanto interesse. Ir às praias implicava em vestir antiquados maiôs ou arriscar-se em modelos improvisados. Havia uma vontade de novidade no ar e os jovens conquistavam o poder de ditar moda e estilo. Um biquíni feito de jeans, o tecido "jovem", era exatamente o que aquele momento exigia.
Os biquínis venderam como água, mas logo apresentaram um grande problema: mal passavam das canelas das mulheres. David decidiu que encontraria uma maneira de fazer o modelo dar certo. Passou tardes fazendo provas com amigas, mas o resultado era sempre o mesmo, ou ficava muito apertado, ou frouxo demais. Conversando com um amigo, mostrou o biquíni a ele, que lhe deu uma idéia: cortar a lateral e fazer um laço, adaptando o biquíni a qualquer corpo. Foi assim que despretensiosamente nasceu um dos maiores ícones da moda praia mundial - o biquíni de lacinho.
O verão de 1971 começou, como de hábito, mais cedo em Ipanema. O que se via de novo, por todos os lados, era o biquíni jeans do David. Ele deixou de ser o irmão de Simão e virou símbolo de uma inovadora marca que acabava de nascer: a Blue Man.
As praias foram tomadas pelos biquínis da Blue Man. O auge do prestígio alcançado pela marca foi quando a musa do momento, a modelo Rose Di Primo, se deixou fotografar passeando pelas areias de Ipanema usando uma das criações de David. Ela, a idealização da beleza brasileira, deu não só destaque, mas aval para a nova marca que surgia.
Nos verões seguintes, outros modelos da Blue Man dominaram as areias. O principal deles, que seguia a onda pop do momento, estampava a bandeira dos Estados Unidos. O mundo olhou para o Brasil quando este biquíni saiu na capa de um importante jornal inglês e a Blue Man dava início a sua carreira internacional.
Em pouco tempo os biquínis e maiôs da marca podiam ser encontrados em Paris, Londres e Milão. A "tanga" começou a freqüentar as páginas das mais importantes revistas de moda e o estilo brasileiro passou a ser copiado no mundo todo. Todo esse pico de moda praia aconteceu em menos de cinco anos, tempo o bastante para o Brasil entrar no circuito internacional como o país especialista no assunto. Tempo o bastante também para David ver seu pequeno negócio se transformar numa indústria séria e profissional.
Neste período a Blue Man continuou lançando novidades, como o biquíni de cordinha, feito de retalho de patchwork e o famoso biquíni de enrolar, uma espécie de shortinho cuja cintura era enrolada ao gosto do freguês. Enquanto isso, o Brasil assistia ao nascimento do seu próprio mercado de moda praia, com o surgimento de novas marcas de beachwear.
Quando os anos 80 chegaram, David se reencontrou com seu irmão, Simão, para criar outro nome fundamental da moda brasileira desta década: a Yes, Brazil. A marca se transformou num sucesso instantâneo e virou hit entre as personalidades mais modernas e estilosas do momento.
Na mesma época David decidiu dar mais força à filosofia inicial da Blue Man e o Brasil voltou a ganhar cada vez mais destaque nas coleções. Foi assim que surgiram estampas de marajoaras, tucanos e da eterna Carmen Miranda, que enalteciam, de maneira leve e sem afetações, o tropicalismo tipicamente nacional.
Ao longo da década de 90 a empresa se modernizou e a Blue Man chegou intacta aos anos 2000, mantendo a mesma energia e criatividade que tinha no seu início, há quase 40 anos atrás.
David Azulay faleceu no dia 9 de fevereiro de 2009, em seu paraíso pessoal, sua casa na cidade de Visconde de Mauá, no Rio de Janeiro. Ele sempre acreditou que a moda praia era um dos meios mais importantes de identificação e divulgação da cultura brasileira. Este é o seu legado. Quanto à Blue Man, ela permanece fazendo com muita o emoção e orgulho sua moda irreverente e autêntica, e vai continuar encantando as areias do Brasil e do mundo.
No início de 2011, Sharon Azulay, filha de David, assumiu a direção geral da empresa. Seu primo, Thomaz Azulay, filho de Simão, está à frente da equipe de estilo. Unidos, os dois se preparam para traçar novas rotas para a Blue Man.